Óptica de câmera · 10 bancadas interativas
Como uma lente faz uma foto
Da câmera escura ao zoom de 3 grupos, em ordem de dependência: cada bancada usa o que a anterior mostrou. Os números são calculados com a física de verdade (lente fina, traçado de raios com Snell, difração, ruído de fóton), não desenhados à mão.
Bancada 01 · Câmera escura
Por que existe lente
Um furo numa caixa escura já forma imagem. O problema é o tamanho do furo: nenhuma escolha resolve nitidez e luz ao mesmo tempo.
Tamanho da mancha de cada ponto × diâmetro do furo
O mecanismo
- Cada ponto da cena projeta, pelo furo, uma mancha do tamanho do próprio furo. Furo menor, mancha menor.
- Só que luz passando por uma abertura estreita se espalha (difração). O ângulo de espalhamento é ~λ/D: quanto menor o furo, maior a mancha. As duas curvas andam em sentidos opostos.
- O ótimo fica em
D ≈ √(2,44·λ·v): cerca de 0,26 mm numa caixa de 50 mm. Isso é ƒ/190 e pede mais de um segundo de exposição em pleno sol. - A lente quebra esse trade-off. Ela aceita um cone largo e dobra os raios de volta para um ponto. Com 25 mm de abertura (ƒ/2) entra ~9 mil vezes mais luz que no furo ótimo, e a mancha geométrica some. O preço: só um plano fica nítido. Esse é o assunto da próxima bancada.
Bancada 02 · Foco
O plano de foco
Cada ponto da cena manda um cone de luz para a lente, e a lente fecha esse cone num ponto atrás dela. Só sai nítido o que tem o vértice do cone exatamente no sensor.
No sensor · 36×24 mm
| Objeto | Dist. | Vértice | Disco |
|---|
O mecanismo
- Lente fina:
1/f = 1/d + 1/v. Cada distânciadna cena tem sua distância de imagemv. Mais perto na cena, vértice mais longe da lente. - O sensor fica num único
v. Só uma distância na cena tem o cone fechando em cima dele: o plano de foco é o conjugado óptico do sensor. - Os outros cones são cortados antes ou depois do vértice. O corte é um disco, o círculo de confusão:
c = A·|vd − v| / vd, comA = f/N. - Fechar o diafragma estreita todos os cones. O disco encolhe, e mais distâncias ficam abaixo de 0,03 mm: a zona nítida cresce, e o plano de foco não sai do lugar.
- Focar é mudar
v. O anel gira uma helicoide que afasta o vidro do sensor. De ∞ até 54 cm são só 5 mm de curso.
Escalas: o lado lente→sensor está 8× ampliado em relação à cena para os vértices ficarem visíveis. Os números usam milímetros reais e critério c = 0,03 mm.
Bancada 03 · Luz
Abertura, tempo e ISO
Três controles, mas só dois deixam entrar luz. O terceiro multiplica o que já chegou, junto com o ruído.
O mecanismo
- Luz por área no sensor ∝
t / N². Dobrar o tempo, ou dividir N por √2 (um stop), dobra os fótons. - O ruído que aparece é principalmente ruído de fóton. A luz chega em grãos, e a contagem flutua √n. O SNR vale ≈ √n: 100 fótons dão SNR 10, 10 000 dão SNR 100.
- ISO é ganho aplicado depois da captura. Ele acerta o brilho, mas não cria fótons. Com a mesma abertura e o mesmo tempo, subir o ISO não melhora o SNR, só evita que a foto fique escura.
- O tempo tem outro custo: tremido. Uma mão gira da ordem de 0,03 rad/s, e o rastro no sensor vale
f·ω·t. Daí a regra de usar tempo mais curto que 1/focal. - À noite o jogo é esse: abrir o máximo e usar o tempo mais longo que a mão aguenta, porque só isso junta fótons. O ISO vem por último, para acertar o brilho.
Modelo: sensor ISO-invariante com ruído de leitura de 3 e⁻, perto do que sensores modernos fazem. Em sensores antigos, ISO alto ajudava um pouco porque reduzia o ruído de leitura relativo.
Bancada 04 · Profundidade de campo
O mito da teleobjetiva
Dizem que a tele "tem menos profundidade de campo". Com o sujeito do mesmo tamanho no quadro, isso é quase falso. O que muda é outra coisa.
Zona nítida e disco do fundo × focal
O mecanismo
- Longe da hiperfocal, a zona nítida vale
≈ 2·N·c·(1+m)/m², onde m é a ampliação do sujeito. A focal não aparece na fórmula. - Manter o enquadramento é manter m. Com o mesmo N, 24 mm de perto e 200 mm de longe dão quase a mesma zona nítida. Veja a curva azul quase plana no modo "mesmo enquadramento".
- O que muda é o fundo. O disco de um objeto no infinito vale
≈ (f/N)·m, o diâmetro da pupila vezes a ampliação. Com m fixo, ele cresce linear com a focal: a tele amplia o fundo, e o borrão do fundo junto. - No modo "câmera parada", o zoom aumenta m, e a zona nítida despenca com 1/m². O mito nasce dessa comparação: ninguém mantém o enquadramento quando compara lentes.
Bancada 05 · Bokeh
A forma do desfoque
Um ponto fora de foco não vira um borrão qualquer. Vira uma imagem da abertura da lente.
O mecanismo
- O cone de cada ponto tem como base a pupila da lente. Cortado fora do vértice, a seção tem a forma da pupila: círculo com o diafragma todo aberto, polígono quando as lâminas fecham.
- O número de lâminas define o polígono. Lâminas curvas arredondam as quinas, e por isso lentes caras mantêm o disco redondo um ou dois stops fechadas.
- A energia de cada ponto é fixa. Disco com o dobro do diâmetro tem 1/4 do brilho por área. Luz mais desfocada vira disco maior e mais apagado.
- Nas bordas do quadro, o tubo da lente corta parte do cone oblíquo (vinheta mecânica), e o disco vira olho de gato. Fechar um stop costuma resolver, porque o cone fica menor que a abertura do tubo.
Bancada 06 · Difração
O limite de fechar
Fechar o diafragma aumenta a zona nítida. A partir de um ponto, porém, tudo perde nitidez, inclusive o que estava em foco.
Recorte 100% do sensor · lente 24 mm, foco a 3 m
Cada pixel do recorte é um pixel do sensor. O alvo é uma estrela de Siemens: quanto mais perto do centro as raias continuam separadas, mais resolução.
Tamanho da mancha × abertura
O mecanismo
- Luz passando por uma pupila se espalha num disco de Airy com diâmetro
≈ 2,44·λ·Nno sensor. Depende só de N, não da focal: uma 24 mm e uma 600 mm em ƒ/16 têm o mesmo disco. - Em ƒ/8 são ~11 µm; em ƒ/22, ~30 µm. Quando o disco passa de uns 2 pixels, a perda aparece no recorte 100%. Sensores de mais megapixels batem nesse limite antes.
- O alvo B sofre dois efeitos opostos: o desfoque cai com 1/N e a difração sobe com N. O ótimo fica onde as curvas se cruzam.
- Por isso fotógrafo de paisagem mira ƒ/8–ƒ/11 e não ƒ/22. É o compromisso entre alcance da zona nítida e resolução no plano de foco.
λ = 550 nm (verde). A mancha de Airy é aproximada por uma gaussiana de σ ≈ 0,42·λ·N, e o disco de desfoque por uma de σ ≈ 0,3·diâmetro.
Bancada 07 · Perspectiva
Zoom não aproxima
A "compressão" da tele e a "distorção" da grande angular não vêm da lente. Vêm de onde a câmera está.
Vista de cima
É só um recorte
O mecanismo
- O tamanho de um objeto na imagem vale
f · altura / distância. A razão entre dois objetos é a razão das alturas vezes a razão inversa das distâncias. A focal cancela. - Então a relação entre primeiro plano e fundo depende só de onde a câmera está. A focal decide quanto do cone de visão cabe no sensor. Zoom de 14 para 200 mm parado no lugar é exatamente um recorte ampliado.
- Para a cabana ficar do mesmo tamanho com a tele, você precisa recuar. Aí a distância até a montanha quase não muda, a distância até a cabana cresce muito, e a montanha cresce em relação à cabana. Essa é a "compressão".
- O dolly zoom (o efeito Vertigo) faz as duas coisas ao mesmo tempo: o sujeito fica parado e o fundo muda de tamanho.
Bancada 08 · Lente real
Aberrações e por que lentes têm vários vidros
Superfícies esféricas são fáceis de fabricar e não focam perfeito. Aqui cada raio é traçado com a lei de Snell exata, superfície por superfície.
Zoom na região do foco
O mecanismo
- Snell é não-linear:
n₁·sen θ₁ = n₂·sen θ₂. Na borda da lente o ângulo de incidência é grande, e o seno cresce mais devagar que o ângulo. Raios altos dobram mais do que a aproximação paraxial prevê e cruzam o eixo antes. Isso é aberração esférica, e o erro cresce com o quadrado da altura do raio. - Com a mesma focal, a forma da lente decide como a refração se divide entre as duas faces. Dividir por igual minimiza o erro: fator de forma perto de +0,7, quase plano-convexa com a curva virada para a luz. Virada ao contrário, piora ~4×.
- O índice de refração depende da cor: azul dobra mais que vermelho. Cada cor tem seu foco (aberração cromática).
- A solução clássica é o dupleto: um positivo de vidro crown colado a um negativo de flint, com potências na razão das dispersões (
φ₁/V₁ + φ₂/V₂ = 0). As cores voltam a coincidir, e a face colada ainda corrige parte da esférica. - Fechar o diafragma corta os raios de borda. É por isso que quase toda lente fica mais nítida um ou dois stops fechada, até a difração da bancada 06 começar a pesar.
Vidros Schott N-BK7 (crown) e F2 (flint), linhas F (486 nm), d (588 nm) e C (656 nm). Mancha = diâmetro RMS no melhor plano, com raios ponderados pela área da pupila.
Bancada 09 · Zoom por dentro
Dois grupos, dois trabalhos
Um zoom é um sistema de grupos que andam em curvas diferentes. Um grupo muda a focal, o outro segura o foco no sensor.
Curvas do came
Prévia
O mecanismo
- Grupo frontal negativo (−50 mm), traseiro positivo (+40 mm). A focal do conjunto é
f = f₁f₂ / (f₁ + f₂ − d): mudar a separação d muda a focal. - Mudar d também move a imagem. Para ela continuar no sensor, os dois grupos andam juntos, cada um na sua curva. O grupo 1 faz um U: vai e volta. Essas curvas são fendas usinadas num tubo (o came) que gira com o anel.
- O diafragma anda com o grupo 2 e tem diâmetro fixo. Como
N = f / pupila de entrada, N sobe ao zoomar: ƒ/3,5–5,6. Um zoom ƒ/2,8 constante precisa de diafragma e vidros maiores na tele, e por isso pesa o dobro. - Focar pelo grupo frontal mantém o zoom parfocal: o curso de foco não depende da focal. Focar pelo grupo traseiro é mais leve e rápido (motor pequeno), mas o curso muda com a focal, então o foco precisa ser recalculado a cada zoom. É o que lentes modernas fazem, com eletrônica.
Modelo paraxial de lentes finas: bom para posições, focal, N e breathing, sem aberrações. Um zoom real tem 12–20 elementos em 4–6 grupos com a mesma lógica.
Bancada 10 · Sensor
Crop e equivalência
Com o mesmo enquadramento, trocar o tamanho do sensor mexe em três coisas diferentes, e cada uma escala de um jeito.
Tamanhos reais
O mecanismo
- Enquadramento: o sensor menor recorta. Para o mesmo ângulo de visão,
focal real = focal equivalente ÷ crop. - Exposição: depende da luz por área,
t/N². Mesmo N e mesmo tempo dão o mesmo brilho em qualquer sensor. Por isso ƒ/1,8 é ƒ/1,8 no fotômetro. - Profundidade de campo e ruído dependem do diâmetro da pupila (f/N) e da luz total. Com a focal dividida pelo crop, a pupila encolhe junto. Para a mesma imagem final,
N equivalente = N × crop. - Luz total ∝ área × 1/N². Um sensor de celular (crop ~3,5) junta ~12× menos luz que um full frame no mesmo ƒ e no mesmo tempo. O processamento compensa empilhando várias fotos, e o desfoque de retrato é simulado por software com mapa de profundidade.